Coluna da Cileide
A ‘policialização’ da política
04/06/2021 – 21:55
“Sua reação (de Caiado) crítica à ação do policial de Trindade sugere censura seletiva ao “abuso de autoridade”, ou seja, omissão em casos de abordagens comuns e recriminação daquela que indicou a politização da polícia”
Uma frase atribuída ao ex-vice-presidente da República Pedro Aleixo entrou para o folclore da história política do Brasil. Aleixo foi o único a discordar, em 13 de dezembro de 1968, do Ato Institucional nº 5 (AI-5), proposto pelo presidente Costa e Silva e decidido naquela noite, iniciando um dos períodos mais autoritários da história do Brasil. Ao ser perguntado se não confiava em Costa Silva, Aleixo teria dito, que confiava muitíssimo, mas temia pelos excessos do “guarda da esquina”.
Não há registros de que a declaração aconteceu – familiares e amigos dizem que sim –, mas a frase, como um espectro, sempre volta a assustar o país quando há temor de retrocesso democrático. Esse fantasma reapareceu em dois episódios na semana passada. No sábado (29) dois homens ficaram cegos de um olho em Recife depois de serem atingidos por balas de borracha disparadas pela PM pernambucana, em repressão violenta do protesto pacífico contra o presidente Jair Bolsonaro. Na segunda-feira (31) um PM prendeu em Trindade o professor e ex-vereador Arquidones Bites pelo “crime de calúnia” por exibir em seu carro a faixa “Fora Bolsonaro genocida”.
Em curtíssima manifestação no dia seguinte à prisão, o governador Ronaldo Caiado (DEM) declarou não aceitar “abuso de autoridade”. Esta foi a primeira vez que Caiado condenou, mesmo que laconicamente, uma ação de “nossa polícia”, como se refere às forças de segurança pública. Antes disso, na sexta-feira (28), o youtuber negro Filipe Ferreira tinha divulgado vídeo com imagens de sua abordagem de forma truculenta pela PM em Cidade Ocidental. Em menos de 48 horas o vídeo somou mais de 5 milhões de visualizações, mas o governador ficou em silêncio. Sua reação crítica à ação do policial de Trindade sugere censura seletiva ao “abuso de autoridade”, ou seja, omissão em casos de abordagens comuns e recriminação daquela que indicou a politização da polícia.
A foto do sorridente policial que prendeu o professor ao lado de Bolsonaro, que também viralizou após o ocorrido, e os fatos de Recife alimentaram suspeitas sobre a parcialidade de PMs e a preocupação com o alinhamento político do presidente com as Polícias Militares, enfraquecendo o comando dos governadores. Ao que tudo indica, essa também parece ser a preocupação de Caiado. Esses fatos coincidem com a decisão do Exército de ceder à pressão de Bolsonaro e não punir o general Eduardo Pazuello, por sua participação em ato político a seu lado, no Rio de Janeiro, em 23 de maio, o que é proibido pelo regimento interno da corporação.
O espectro surgido a partir do temor do vice-presidente Pedro Aleixo, há 53 anos, ganhou materialidade com o presidente Bolsonaro, que é o próprio “guarda da esquina” na Presidência da República. Esse “mau militar”, segundo palavras do general Ernesto Geisel em 1993, desestabiliza as instituições democráticas, estimula a anarquia nos quartéis militares e a violência política contra seus adversários em prol de seu projeto autocrata de poder.
É nesse contexto que se insere a “policialização” da política brasileira. A eleição de 2018 marcou a ascensão de policiais em cargos eletivos. Em Goiás, o projeto Patronos, de estímulo à candidatura de militares, elegeu dois prefeitos, dois vice-prefeitos e 23 vereadores em 2020 e vai lançar candidatos em 2022. Parece ser este um caminho sem volta.
Ah, vale lembrar que Pedro Aleixo foi vítima do “guarda da esquina”. Em março de 1969, três meses após o AI-5, Costa e Silva morreu e o vice-presidente foi impedido pelos militares de assumir o cargo.
Deslumbramento
O prefeito Rogério Cruz (Republicanos) e sua mulher costumam divulgar vídeos em suas redes sociais dando “bom dia” à população, como aqueles tiozões em grupos de WhatsApp de família. Nesta semana fez algo bem menos pueril. Na terça-feira (1º), ele divulgou foto almoçando em um restaurante em uma mesa com 11 pessoas, contrariando seu próprio decreto de distanciamento social e em meio ao temor de recrudescimento da pandemia. Como caiu de paraquedas no Paço Municipal, ele demonstra desconhecer a representação institucional de um prefeito, em especial o de uma metrópole como Goiânia.

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